Ontem

Estava eu sentada muito perto do cair da cadeira enquanto reconhecia, instantaneamente, o cheiro dos lírios que hoje de manhã abriram-se para o mundo ou pelo menos por essas quatro paredes onde se faz vida todos os dias. Entretanto, a alegria que venho tentado alimentar de forma humilde sorriu-me e eu sorri de volta. E dei-me conta que afinal, não custa nada. Pela janela, nota-se o entardecer a cobrir em tom de cerimónia, as fachadas de arte nova e as folhas que nessa estação só nos deram laranjas. As ruas e as pessoas encontram-se e bailam juntas, pelas pontas dos pés, a ritmo de poesia que balança de um lado e do outro e que então permanece quieta, meio tímida meio velha e pisca o olhar mais uma vez só para ter certeza de que sim.

Tal como eu faço esses dias quando penso na minha avó.

Ontem não sonhei com ela mas gostava. Dormimos juntas, enquanto me abraçava nos fios grossos e negros do meu pensamento. Tentava trazê-la para os meus sonhos, com a mesma voz e com o mesmo cheiro, assustada com a ideia de que, um dia, com o passar do tempo e da memória, a presença desvanece. E à medida que ela desvanece, descobrimos lugares dentro de almas que nos fazem sentir em casa, deixamos de ser tão egoístas com a felicidade e fazemos questão de momentos simples, crus, que nem sempre ficam tão bem na fotografia. Tentamos cantar no silêncio e bailar também pela ponta dos pés, mas dessa vez em ritmo de vida.

Ontem não sonhei com a minha avó, mas não faz mal, porque afinal, a vida permite-me fazer acordada, de olhos abertos e aproveitar, a tempo inteiro, a memória dela presente enquanto, ainda de olhos abertos, observo vida, nova vida a acontecer e desabrochar.





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